O INÍCIO DA CONQUISTA DO VALE DO GUAPORÉ

PROFESSOR SILVIO MELLON

O INÍCIO DA CONQUISTA DO VALE DO GUAPORÉ

Prof. Sílvio Mellon*

Ouro! Ouro! Certamente essa era a palavra mágica que encantava os colonizadores ibéricos em busca da riqueza fácil, de encontrar o eldorado que o imaginário europeu se encantava na mesma proporção do medo pelo insólito, pela navegação no mar tenebroso. A coragem e a ambição das potências europeias superavam quaisquer obstáculos no novíssimo mundo encontrado por Cristóvão Colombo em 1492.


Não eram somente as mentes colonialistas que as caravelas transportavam no rumo d’além mar. Com as primeiras expedições na região amazônica, até então terras da coroa espanhola como assim definia o Tratado de Tordesilhas de 1494, firmado entre Portugal e Espanha, o novo mundo de riqueza, encantamento, glória e dominação, assumiu a condição de cenário do encontro de povos diferentes, de culturas e religiões com grau marcante na relação de antinomia. A humanidade começara a se globalizar com Colombo, mas cada povo permanecia guarnecido por suas divindades. A cavalo com Hernán Cortez, também chegou à parceira inseparável e primordial para conquista: a morte!


Quando o Oceano Atlântico entrou na rotina de grandes viagens, os conquistadores chegaram aqui. O que hoje se constitui o atual Estado de Rondônia tinha sua área concentrada dentro do gigante território espanhol e passou a ser conhecido a partir da primeira metade do século XVII. Para ser explorado, os aventureiros que aqui pudessem se arriscar deveriam ter em mente, sobretudo, que fronteiras deste vasto mundo não deveriam ser respeitadas, valendo sim, a vantagem financeira, o espírito pirata do capitalismo em potencial.


E isso realmente ocorreu, inicialmente com aventureiros ingleses, franceses e holandeses que adentravam a densa mata virgem na região, através do rio Caiari, em caça predatória às abundantes drogas do sertão. Sem quaisquer noções de terras alheias, eles se importavam mais em se abastar das conhecidas essências de valor comercial graças a sua difusão nas cortes europeias, donde tinha mercado certo e lucros exorbitantes. Buscava-se o que pudesse render lucros para o governo e para o caçador de riquezas podendo ser, na ausência de metais preciosos, ovos de tartaruga, anil, cacau, baunilha, salsaparrilha, canela, cravo, pau-brasil, pau-preto, castanha entre outras, as chamadas drogas do sertão, vendidas por alto preço para o deleite das cortes europeias. As onças cediam suas peles. Os nativos, sua obediência, sob as ameaças mórbidas das pestes ou dos bacamartes do homem branco. Terras, riquezas sob mero subterfúgio de salvar almas dos “selvagens”…


Sobre os pioneiros, há teorias e controvérsias acerca do primeiro homem a navegar pela região amazônica. Isso é comum no cientificismo histórico. Entretanto, relata-se que foram as expedições espanholas, em meio a sucessos e catástrofes, que primeiro aportaram nos grandes rios amazônicos. Um dos nomes de relevância, citado pelos historiadores e estudiosos sobre o tema é o de Vicente Yañez Pinzón, navegador espanhol que chegou à foz do rio Amazonas nos primeiros meses do ano do descobrimento do Brasil (1500), estendendo a viagem até a costa do atual estado de Pernambuco onde ancorou em Cabo de Santo Agostinho quando foi atacado por índios que praticavam rituais de canibalismo. Ao navegar pela principal rota fluvial do norte do Brasil, Pinzón denominou o rio amazonas de Mar Dulce. Primo do navegador Diego de Lepe, integrou a primeira expedição de Cristóvão Colombo no comandou a caravela Niña, tripulada por vinte e quatro homens. No retorno à Espanha, obteve em 1495 autorização dos reis para empreender outras expedições ao novo continente.


Em 1499, partiu com uma esquadra de quatro caravelas tendo sido considerado o primeiro navegador europeu a ultrapassar a linha do Equador na região das Américas, descobrindo algumas ilhas naquela região. Foi exatamente nessa viagem que Pinzón alcançou a costa brasileira, tendo avistado um grande promontório, Cabo formado por penhascos ou rochas elevadas que chamou de Santa Maria da Consolação sobre o qual atualmente os autores se dividem, considerando-o ou o cabo de Santo Agostinho no litoral sul de Pernambuco ou a ponta do Mucuripe, atual Ceará. Pinzón, malgrado ter perdido alguns homens, tomou posse para a Coroa Espanhola em 26 de janeiro de 1500.


No ano de 1541, Francisco Orellana navegou pelo Amazonas em direção ao Oceano Atlântico sendo este, o mesmo trajeto percorrido por Pedro de Ursa e Lope Aguirre. Orellana realizou a primeira navegação total do volumoso rio Amazonas desde que chegou ao continente americano com apenas 16 anos, e em 1533 decidiu unir-se às tropas de Francisco Pizarro, unidos pelo parentesco familiar e completava desse modo a conquista do Peru. Participou do assédio de Cuzco e, nos conflitos que surgiram entre os espanhóis, apoiou a causa dos seus familiares. Como recompensa, recebeu de Pizarro os cargos de governador e capitão-general de Guayaquil. Deparando-se, nas margens do rio, com um grupo de índias que acompanhavam os homens em combate, chamou-as de amazonas, confundindo-as com as antigas guerreiras da mitologia grega. As narrativas do escrivão de bordo, Frei Gaspar de Carvajal, relatando a existência de mulheres guerreiras nas margens do grande rio, as Amazonas (cognominadas de icamiabas pelo povo nativo), são responsáveis pelo nome que identifica a grande região que acolhe a densa floresta tropical. O trecho abaixo refere-se às guerreiras:


…“em 1542, Frei Gaspar de Carvajal, escrivão da frota espanhola de Francisco Orellana, ao penetrar num enorme rio brasileiro, que ele chamou de “Mar Dulce”, encontrou mulheres guerreiras, tendo sido por elas atacado. O medo foi tanto que o frade escriba, ao vê-las jovens, belicosas, nuas, chegou a afirmar que queimavam um dos seios para melhor manejar o arco e a flecha. Confundiu-as com o mito grego das Amazonas. E o grande rio foi batizado como: – o rio das Amazonas, rio Amazonas.” (BRASIL, histórias, costumes e lendas – São Paulo: Editora Três Ltda., s/data Ilustração: José Lanzellotti).


Em 1540 se incorporou à expedição que Gonzalo Pizarro empreendeu em busca do Eldorado. Ao fracassar a empresa, Orellana embarcou com um grupo de expedicionários seguindo o curso dos rios Coca e Napo, lançando-se na conquista de novas terras em nome do rei da Espanha. Alcançou as caudalosas águas do Marañón e chegou a Machifaro, capital do país dos omáguas. Seguiu rio abaixo e descobriu a tripla desembocadura do Purus, que chamaram de Rio de La Trinidad. Em 1542, depois de ultrapassar a foz do rio Negro, chegou ao legendário domínio das Amazonas, chamado por ele Grande das Amazonas. Orellana morreu em um naufrágio a bordo de uma embarcação a remo ou à vela conhecida à época como bergantim, provavelmente nas proximidades de Macapá, em 1550.


O primeiro explorador europeu que provavelmente teria alcançado o vale do Guaporé foi o espanhol Ñuflo de Chávez, conquistador espanhol que percorreu este trajeto em companhia de Álvar Nuñes Cabeza de Vaca viajando entre 1541 e 1542. Entre os séculos XV e XVI navegaram nos rios amazônicos Vicente Yañes Pinzon, descobridor da foz do rio amazonas, dando-lhe o nome de Santa Maria do Mar Dulce, Francisco Orellana, Pedro de Úrsua e Lope de Aguirre. No século XVII, Pedro Teixeira iniciou as demarcações para a coroa portuguesa na região Amazônica.


Em 1647, o bandeirante Antônio Raposo Tavares navegou pelo Rio Guaporé e pelo Rio Madeira. Sua marcha ficou conhecida como “a grande bandeira” encerrando quando da sua chegada à Capitania do Grão-Pará com apenas 59 homens dos milhares que saíram na aventura. Esse bandeirante só trouxe morte e doenças dos brancos para os nativos. Ele vinha prea-los e escraviza-los para vendê-los aos donos de fazendas no litoral através das bandeiras que eram expedições armadas, organizadas e financiadas por grandes proprietários paulistas. O objetivo principal era suprir a carência de mão-de-obra nas lavouras do litoral e dela participavam brasileiros, estrangeiros, brancos, negros e mamelucos. Tinham fins econômicos, mas apesar de agir de forma predatória, estas expedições contribuíram para a demarcação e expansão do território brasileiro. Porém, para o povo indígena, representou a escravidão e a morte.


Em 1719, o fluxo populacional na região do Guaporé aumentou vertiginosamente com a descoberta de jazidas de ouro pelo bandeirante Paulista Pascoal Moreira Cabral descobriu grandes jazidas de ouro nos rios Caxipó e Cuiabá, deslocando as bandeiras paulistas para o oeste. Três anos depois, o bandeirante paulista Miguel Sutil encontrou grandes depósitos auríferos provocando um aumento do fluxo de aventureiros e em 1723, a bandeira de Antônio Pires de Campos alcançou a serra do Norte, Campos Gerais (atual Vilhena) havendo então o primeiro contato entre brancos e índios Parecis.


Entretanto o surto populacional em busca da riqueza dos filões auríferos no Vale do Guaporé só se concretizaram em 1924 quando os bandeirantes José Martins Charo, José Pinheiro e os irmãos Fernando e Arthur Paes de Barros descobriram terrenos auríferos nas cabeceiras do rio Guaporé onde em seguida surgiram os arraiais de Sant` Ana e de São Francisco. Em meio as dificuldades da espessa floresta denominaram a região de Mato Grosso, nome que se eternizaria na construção do Estado brasileiro que mais cedeu terras para a formação do então território federal do Guaporé em 1943..


Em fins do século XVIII o Vale do Guaporé entrou em um processo irreversível de decadência econômica e populacional, em decorrência do esgotamento da produção aurífera, paralisando a economia da Amazônia. Para agravar ainda mais a situação houve a remoção das guarnições militares dos povoados e vilas dos rios Madeira, Mamoré e Guaporé para o vale do rio Paraguai ameaçado de invasão pelos espanhóis.


Ante o abandono da região por mineradores, comerciantes, funcionários públicos e militares, aqui permaneceram aventureiros como míseros faiscadores de ouro e escravos que com sua prole, agora livres, sobreviveram do cultivo da lavoura, da pesca, caça, e coleta de produtos florestais e partiram para a miscigenação com os que aqui habitavam, inclusive, indígenas. Assim se formava a sociedade guaporeana e o Brasil começava a assegurar a posse o rico território para os brasileiros.


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